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terça-feira, 16 de junho de 2015

A Lenda...




Eis aqui mais um dos meus textos já postados, esse, diferente do restante, chega a quase ser uma fábula. Fiz algumas modificações nele para prestar uma espécie de homenagem à minha amada mulher, espero que ela compreenda meu intuito!

Esse era um conto em forma de folclore, não do nosso país, claro, pois aqui não existem dragões, só daqueles do tipo: esforçados que singram pela arte atrás de estabelecerem-se em todas as possíveis lendas um dia contadas por nosso povo...




 

A Lenda...



Existe uma lenda, que diz que um admirável e exuberante dragão, desceu dos longínquos céus para poder amar plenamente o ser que ele mais admirava em nobreza e em beldade, uma perfeita ave. 

O dragão amava o jeito singelo daquela ave voar, batendo suas assas para forçar a sua subida e planando suavemente para descer. Ficava curioso acerca de suas penas, todas pomposamente sobrepostas de forma a fecharem-se igualmente por todo seu corpo formoso. 

Ele via a aerodinâmica daquele lindo espécime e estudava-o da ponta de seu fino bico até o desenho simétrico da cauda... Vê-la rasgar o vento num voo rasante era indizível... e ele ficava lá do alto, admirando-a.
 
A ave não conhecia o que existia acima das nuvens, muito além de todas elas, não sabia que o voo podia se estender a tanto. Ela não tinha o costume de olhar para o alto, pois já se sentia sempre no topo enquanto voava despreocupadamente. Então, sequer viu quando as nuvens se abriram e o imenso ser mítico aproximou-se pela primeira vez...

O voo do dragão, ao contrário do que todos pensam, assemelha-se a um leve ondular que ele realiza com o seu corpo, pois esse ser milenar não possuía asas e sim um poder inimaginável que lhe dava essa condição. E, assim sendo, ele ondulou pelo espaço até alcançar os ventos e postar-se alguns metros acima do voo daquela linda ave.

- És a mais bela de todas de tua espécie, encantas-me tu com teus perfeitos movimentos e tua magistral sabedoria...

A ave espantou-se e rodopiou pelo ar, pois a voz do dragão parecia o rugir de cem feras e suas palavras ecoaram pelos sete ventos como imensos trovões! 

- Como podes afirmar o que não sabes, ó, ser imenso! O que és tu? - ponderou a singela ave que não pôde parar de bater as asas para responder ao incólume dragão.

- Aqui, pouse em minha cauda, ó, rainha dos ares, para que possamos conversar! - afirmou estrondosamente o ser magistral. Este articulava-se sem dificuldades em meio ao nada e estendeu sua parte inferior para servir de ninho para a ave.

Ela assim o fez e pousou na enorme cauda estendida e imóvel, suas penas esvoaçavam lindamente com o agitar dos ventos daquela altura. Eles se olharam. Os olhos daquela ave eram estreitos e vorazes, perfeitamente mortais. Os dele eram gigantescos espelhos das eras, seu olhar era brilhante e musical.

- Sou um dragão, e quero tomar-lhe como companheira, ó, rainha dos ares. - sussurrou o monstro para não ser deseducado, mas mesmo assim sua voz ressoava como uma floresta sendo devastada.

- Acho graça de tuas palavras, ó, titã, mas não há possibilidades de sermos compatíveis.

- O que é mais compatível a nós do que todo o espaço a nossa volta? És bela e tua plumagem me encanta. Não são repugnantes como minhas escamas e esse grossos pelos que saem de minhas ventas...

A ave sorriu com os olhos e ouriçou suas penas no gélido vento. O dragão chiou profundamente, como a liberar um grande estoque de ar que estava em seus pulmões.

- Fico lisonjeada com tuas palavras, oh grande dragão... mas o que queres tu, com um animal de minha espécie? Não vês que meu voo é apenas entre o espaço e a terra? Não vês que és imenso e que sou esguia perto de ti?Concordas comigo que isto não passa de uma ilusão?

O dragão arfou profundamente e depois respondeu estrondoso:

- Vejo que lhe faltam pequenas coisas como a sensatez, minha cara, afinal, sou um ser místico, existo para teus olhos apenas e pra nenhum outro mais. Sendo assim, porque duvidas de minhas intenções para contigo? Se estou aqui, diante de ti, é para que também me queiras, assim como lhe quero por milênios até o fim.

- Mas somos tão diferentes e...

- Não estás me ouvindo com atenção, não é uma questão de escolha, estamos predestinados a uma vida juntos, nascemos para vivermos lado a lado...

- Perdoe-me então, mas como respondes o fato de vivermos pra sempre juntos se somente tu és imortal?

- És graciosa até em teus equívocos, minha bela. Viveremos a eternidade de nossos corações, unidos pelo amor que sentimos um pelo outro... por era, milênios, encarnações e pensamentos.

- Como podes saber de meus sentimentos se mal te conheço, fera indômita?

A ave estava admirada, mas não sabia o que aquilo tudo, surpreendentemente novo, lhe representava. Podia ser verdade o que o grande dragão lhe dizia? E, como lendo seus pensamentos, o dragão num penetrante e intenso olhar lhe revelou:

- Olhes tu em meus olhos e responda, podes não desejar a eternidade em experiências inigualáveis e viveres feliz ao meu lado para singrar os céus e o universo apenas com o desejo de teu pensamento? Amo-lhe, pois admiro tua força, tua destreza, tuas habilidades, teu carisma, tua raça de viver e... já estou em ti antes mesmo de descer até aqui para falar-lhe... tu podes ser amada por mim... posso eu, ser amado por ti?
Ela não conseguia encontrar palavras e em silêncio permaneceu. O vento soprou suave e constante enquanto a ave refletia. Ele olhava-lhe as penas lisas que dançavam poeticamente, ela olhava-lhe o tamanho mitológico que se perdia no tempo. Num átimo, era como se tudo sempre tivesse sido e nunca houvesse de ser escolhido...

- Sim – ela respondeu tímida e carinhosamente – podes...

Assim, desde este dia, os céus tomaram outras formas e as nuvens também. O verde ficou mais verde e a natureza se regozijou em felicidade por tão bela união. O pensamento perdurou por era e vidas e os dias passaram como simples segundos. O amor ultrapassou o tempo e viveu singelo como um bela lenda...






Publicado originalmente no dia 24 de janeiro de 2010, domingo.



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Algum tipo de poder... (revisão)





Fiquei feliz em encontrar esse meu antigo conto, uma história muito divertida sobre um novo tipo de poder! Criei esse texto por causa da minha incrível e real habilidade de dar pau em tudo que é eletrônico. Seria uma história verídica? Sei que gostei muito de ter escrito e mais ainda de ter relido, espero que apreciem tanto quanto eu:



Algum tipo de poder...




Estava à toa na vida, pensando em algo de bom para fazer. E isso, para mim, naqueles dias, era uma coisa bem complicada. Estava desempregado, quase sem grana nenhuma e beirando a fome. Eu bem que queria estar trabalhando, construindo, ajudando alguém e até mesmo me divertindo com amigos. Mas eu estava tão 'deprê' que não animava fazer mais nada. E não me restando coisa nenhuma, fui fazer o que todo cidadão desempregado infeliz comum gosta de fazer numa noite chata: assistir TV.

Estava tranquilo esperando minha TV abrir a imagem – ela era tão velha que eu tinha que esperar de vinte a quarenta minutos para que ela funcionasse normalmente – para poder ver o programa, que até então, eu estava só ouvindo. Um lixo de programa, é claro. O quê mais um ser humano comum pode esperar dos programas televisivos de hoje? Ainda mais TV aberta. 

Enquanto esperava, pensei em comer alguma coisa. Olhei a geladeira e encontrei ali: um vidro de groselha, duas garrafas de água, uma caixa de ovos com dois dentro, um pote de manteiga pela metade, meio pacote de pão e um pedaço de queijo duro e embolorado. Não tive dúvidas. Levei para cozinha o que eu iria comer. 

Primeiro limpei o queijo, tomando cuidado para não tirar demais as partes estragadas e não sobrar nada; depois peguei duas fatias de pão, adicionei fatias finíssimas de queijo e coloquei-o no micro-ondas para derreter – e matar o que sobrasse de germes daquele alimento. Programei trinta segundos e quando estava faltando quinze, o aparelho desligou. Apagou. Verifiquei a tomada, depois os botões, depois o fusível e por último os disjuntores. Nada. Provavelmente queimado. Bom, não me importei com isso e tirei meu pão lá de dentro, que já estava suficientemente aquecido.

Sentei-me na cama, de frente para a televisão, e comecei a devorar meu pão com queijo. No meio da terceira mordida a TV que já estava quase se abrindo apagou. Gritei furioso e de boca cheia: “Maldição!!!”. Porém, antes de me levantar e procurar o defeito da porcaria da TV, terminei de comer o pão com muito desgosto. 

Levei o prato para a cozinha e assim que acendi a luz, daquele aposento escuro, ouvi um estalo e vi um flash. A lâmpada havia se queimado. Voltei para o quarto e procurei o defeito da televisão. Cocei a cabeça, desconcertado, e comecei a juntar os fatos. Alguns meses antes, quando estava para ser mandado embora e precisava já de dinheiro, havia ocorrido algo semelhante. Matutei, matutei e por fim percebi que alguma coisa estava acontecendo. 

Sentei-me na mesa da sala e liguei meu velho computador. Ligou da forma correta – o que quer dizer que demorou muito. Iniciou-se e estava eu lá, a digitar, quando ele começou a travar. “Tudo bem”, pensei, “computador velho é assim mesmo”. Esperei um pouco, pacientemente, aguardando que ele voltasse e eu pudesse salvar o que já tinha escrito. Passou alguns minutos e ele voltou. Dirigi a seta do mouse até o 'salvar' e antes do clique, a porcaria toda desligou-se. Apertei o power novamente. Ouvi um barulho e um estalo e nada. Angustiei-me. O que era aquilo?

Voltei para o quarto deitei-me. Joguei os chinelos de lado e me cobri com um lençol. Não se passaram dois minutos e a luz da casa sumiu. Levantei mais mal humorado do que de costume. Tropiquei até chegar na cozinha, procurei uma caixa de fósforos e risquei um. Fui riscando um atrás do outro até encontrar uma vela. Acendi a maldita vela e ainda me queimei com a cera. Fui até o painel de força, liguei e religuei tudo e nada. Só podiam ter cortado minha luz. O que seria normal para aqueles tempos de recessão.

Voltei para cama e desisti da vida. Estava quase pegando no sono quando uma ideia surgiu de repente. Num pulo estava de pé. Peguei a vela e procurei na gaveta perto da escrivaninha uma coisa. Depois de revirar todas as gavetas, na última, eu encontrei a lanterna. Essa eu havia comprado no mês anterior com meu último dinheiro do seguro. Estava novinha em folha e até pilhas novas eu possuía. Era o teste final. Coloquei as pilhas recém tiradas da embalagem dentro da lanterna e liguei-a. Aquele clarão iluminou muito bem tudo o que eu apontava. 

Deitei segurando a lanterna apontada para o teto. Fiquei ali um tempo e, antes que minhas suspeitas fossem por água abaixo, a lanterna tremeluziu seu facho e apagou. “Perfeito!” exclamei exaltado. Vesti minhas calças e minha blusa, calcei os sapatos e fui para rua. Atravessei a rua correndo e fui para o banco perto de casa. Tirei meu cartão – que eu sabia que estava zerado – e introduzi no caixa eletrônico. Comecei a fuçar nas opções esperando aquilo acontecer e, antes de receber o aviso de 'saldo insuficiente', o caixa apagou. “Maravilha!” comemorei em voz alta.

Saí do banco renovado, disposto a aprender mais sobre aquilo. Sempre li histórias em quadrinhos na minha adolescência, mas nunca pensei que seria desse jeito. Eu realmente possuía algum tipo de poder, era um fato e eu iria provar para mim mesmo que o tinha. E estava pronto para testá-lo mais vezes...

Quando era criança, imaginava-me podendo voar, carregar coisas pesadas, ricochetear balas, atravessar paredes com os punhos, dissolver coisas com o pensamento... tudo, menos que meu poder seria o de estragar qualquer coisa elétrica e eletrônica. No caminho por onde estava andando, havia estacionado um carro com o alarme disparado e tocando irritantemente. Nem pensei duas vezes. Encostei no teto do carro e esperei a mágica acontecer. Acho que devido a minha empolgação o efeito veio mais rápido. O veículo calou-se de imediato. Começava a entender o meu dom, mas ainda assim, pensava se não seria somente uma coincidência. Nada melhor do que continuar testando. 

Olhei à minha volta e avistei um orelhão. Retirei o fone do gancho e verbalizei: “estrague”, e a porcaria ficou muda no mesmo instante. Estava irradiante. Contente de possuir 'poderes', mas depois de vários testes – todos eles muito bem executados – percebi que eu não possuía uma finalidade. “Pra que serve essa merda?” 

Continuei caminhando pela rua e a medida que andava eu apontava para os postes de luz e dizia “apague” e ele se apagava. Fazia isso agora só por diversão. Não precisava mais tocar. Apenas apontar ou dizer. O efeito já era imediato. Enquanto me divertia, ficava tentando imaginar formas de sair da merda financeira. Precisava ganhar alguma coisa com isso. E nesse exibicionismo todo, fui deixando um rastro de destruição por onde passava. 

Quando olhei para trás, do alto da avenida que eu acabara de percorrer, vi o que eu tinha feito. Tudo apagado, estragado, destruído. E vendo aquela cena, parei, sentei e pensei: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Jargão a parte, eu percebi o quê tinha em minhas mãos. Aquela dádiva. Aquele estranho poder. 

Fiquei ali, sentado, por um bom tempo, refletindo, tentando descobrir o que fazer com aquilo. Venderia meus serviços? Quem iria querer alguém para destruir algo – algumas pessoas me passaram pela cabeça. Pensei até numa roupa bacana para usar - nada de roupas colantes - quando estivesse em ação. “Ação?” repeti a palavra. Não sabia ao certo o que eu queria ou o que estava planejando. Só sei que, assim como meus poderes, uma ideia surgiu do nada. 

Levantei, bati a mão nas calças limpando-me e olhei para cima, admirando aquele céu estrelado. E foi ali que eu percebi o que faria. Usaria aquele poder para fazer algo de útil. Algo que, agora, eu poderia fazer. Não seria mais um inútil. Todos iriam saber sobre mim e conheceriam meus talentos. Promoveria para os habitantes do planeta o que eu melhor saberia fazer: instauraria o caos!!!

Continua... 


 
Publicado originalmente no dia 17 de fevereiro de 2011, quinta-feira.





sábado, 6 de junho de 2015

A decisão - Conto VIII





"Pai, por favor, escute o que todos nós estamos lhe pedindo!"

"Senhor Abreu, só o senhor pode zelar por sua saúde. O que seus familiares podem fazer por você é torcer para que o senhor faça a escolha certa!"

"Olha, Abreu, olhe para todos nós, viemos porque te amamos, homem! O Renatinho viajou lá do Norte pra cá só para te dar esse apoio!"

"É, pai, e não sou só eu, o Lucas nem anda dormindo direito de tanta preocupação. A Marcinha e a Laurinha nem comeram hoje e não param de chorar por causa do senhor, meu pai!"
"Que outra escolha o senhor tem, papai? Por favor, não quero ser filha de um homem que morreu por causa de bobagem..."

"O senhor sempre nos ensinou coisas boas, pai, por que é que o mais importante o senhor vai deixar de lado? É a sua vida que está em jogo e eu concordo com a Laurinha, você não pode morrer por causa de uma bobagem dessas, meu pai. Como sua filha mais velha, eu imploro, pare com isso, por favor!"

"É... sei que estão preocupados comigo... sei que... cof... cof... posso fazer isso, ainda mais com um amor assim tão grande da minha família... sempre quis todos vocês assim reunidos... para... cof... cof... para passarmos mais tempo juntos e... cof... cof.. cof, cof, cof..."

"Calma, senhor Abreu, tome mais um gole... aqui... isso... deite-se com calma. Fale devagar, o senhor ainda está fraco."

"Tudo bem, doutor Bernardo... eu só tenho a lhe agradecer... eu sei o que estou causando para essa família... cof.. sei que... cof... estou causando a dor de todos eles... cof... e agora, não tenho mais escolha... cof... a não ser, parar... cof... acreditem... cof... paro agora... cof... a partir de agora... cof..."

"Sábia decisão, senhor Abreu!"

"Obrigado... doutor... cof..."

"Isso, homem!, sabia que conseguiria!"

"... cof... obrigado, mulher... desculpe... cof... por demorar tanto... cof..."

"Ô, meu pai, muito obrigado!"

"Obrigado você, Renato, por... cof... vir te tão longe... cof... ver seu pai!"

"É, papai, obrigado!"

"Nada... cof... Laurinha... minha filha mais linda... faço por você também... filha..."

"Pai, sério, sei que o senhor tomou a melhor decisão, obrigado!"

"Devia ter feito... cof... cof... isso há muito tempo... filho!"

"É, pai, o senhor é um guerreiro, obrigada, pai!"

"Não me agradeça... filha... eu é que tenho... cof... cof... agradecer você!"

"Muito bem, senhor Abreu, sei que o senhor vai ficar muito bem depois dessa decisão acertada! Já não era sem tempo! Tudo vai ser melhor agora, garanto!"

"Confio... cof... cof... no senhor, doutor... Bernardo... cof..."

"Agora recomendo a todos que esperem lá do lado de fora, vou pedir à enfermeira que comece com a medicação, logo ele estará descansando e tudo vai ficar bem!

"Eu abro a porta..."

"Vem, mãe, vamos. Papai vai ficar bem..."

"..."

"..."

"Renato, o que você acha?"

"Ah, Lucas, já sabemos que é tarde demais e..."

"Não fale assim, Lucas, a Laurinha não quer ouvir isso!"

"Deixa de bobagem, Márcia! Eu já sabia que meu pai não passaria dessa semana, vocês é que ficam se iludindo!"

"Filha, não fale assim do seu pai! Não é justo... snif... snif..."

"Olha aí o que você fez, Laurinha, tinha que fazer a mamãe chorar?!"

"Gente, mas eu só estou constatando os fatos, depois de tantos anos o que vocês queriam? Não é largando agora que tudo vai se resolver... simples!"

"Não seja cruel, Laura, é seu pai que está lá dentro!"

"Parou, parou, parou! Não vamos começar uma briga aqui por causa disso! Temos que ser coerentes!"

"O Lucas está certo, pessoal, já sabíamos que chegaríamos nesse ponto. Venha, mãe, espere lá no sofá daquela sala. Eu e os meninos vamos lá fora rapidinho."

"Tudo bem, filha..."

"Você vem, Marcinha?!"

"To indo, Laurinha!"

"..."

"..."

"Alguém aí também quer um cigarro?!"

"Nossa, já não aguentava mais!"

"Eu também!"

"Ufa, eu também!"


sexta-feira, 5 de junho de 2015

6 (seis)




Essa é a sétima parte de um conto chamado "Zero", para ler todos os contos anteriores e se inteirar do que aconteceu até aqui, leia essa sequência (Os números abaixo são os links para os outros contos):


Caso você já tenha lido, vá direto para o conto abaixo. Caso lembre do que já leu, vá direto para a leitura desse. Caso não se importe em saber o que aconteceu antes, leia esse mesmo sem entender nada. E caso esteja lendo isso e não saiba o que está fazendo aqui, a culpa foi do Google ou de um clique descuidado, volte para sua vida e esqueça que esteve aqui! Boa leitura para quem fica:




... e ele/ela ficou ali, contando-me coisas de um homem sem igual, incrível e que provavelmente ainda estaria vivo por toda a eternidade. Mesmo eu não entendendo nada sobre eternidade eu confirmava com a minha cabeça, como se aquilo fizesse sentido para mim, como se eu estivesse compreendendo. A garotinha loira falava desenfreadamente como se não houvesse um amanhã e tudo precisasse ser contado logo. Imediatamente.

O que o meu companheiro/companheira de conversa não entendia era que não havia formas de eu assimilar algo tão imensurável, pois eu era um simples mortal, meio louco, que gostava de ler e tomar café e que, de vez em quando, conversava com a Morte na forma de uma garotinha num bar/restaurante/lanchonete vinte e quatro horas. Outra coisa muito importante, eu era um ser isolado que sentia a falta de alguém, a falta do homem que preencheu a minha vida por três belos e incomparáveis anos. Isso fazia sentido para mim, mesmo com meus instáveis sentimentos, mas não devia fazer o menor sentido para alguém como a Morte.


"Perdoe-me interrompê-la, mas o que é que isso tem a ver comigo?" - interpus tentando ser cordial - "Qual é o valor dessa informação para alguém que sequer é normal e vai morrer dentro em breve?"

Ele/ela riu das minhas palavras, como se o que eu havia dito fosse-lhe uma forma de descaso e abanou a cabeça como se eu acabasse de blasfemar.

"Acho que a falha é minha. Ser alguém que traz a solidão é incompreensível demais para alguém que está só! Mesmo eu sendo alguém - ou alguma coisa - que se sente só também!"

A garotinha se calou. Levantou-se sem dizer nada, desamarrotou seu vestidinho simples, jogou seus lindos cabelos dourados para trás dos ombros e partiu dali caminhando.

Fatos:


   - 1. Realmente não tive a intenção de magoar a própria Morte.

   - 2. Hoje era dia do rapaz de barba engraçada trabalhar na cozinha, então pedi o meu prato predileto que levava o meu nome, mas que só eu sabia que se chamava assim.

   - 3. Já tinha lido meu antepenúltimo livro, mais dois e começaria meus vinte últimos.



Apreciei minha refeição como se estivesse fazendo a última. Deveria viver aqueles dias como uma despedida, mas não me entendam mal, não estava triste por partir, mas sim contente porque sabia que eu o veria novamente... Na verdade eu estava era empolgado com essa nova oportunidade, se pudesse eu até adiantaria o processo, mas sou meticuloso, não faço nada que esteja em desacordo com os dias. Hora de voltar para casa.

Cheguei em casa muito cedo, quer dizer, antes de amanhecer o dia. Entrei pela porta, tranquei-a, olhei em volta, livros por todos os lados, cuidadosamente empilhados em grandes colunas. Misteriosamente preferia-os assim, não como as outras pessoas os dispunham, em fila. Os livros, para mim, deveriam ficar assim, em colunas, como grandes pilares do saber.

Fui até a minha parede que mais parecia uma altar dedicado à pessoa amada. Meu querido companheiro, o único ser que um dia compreendeu-me, amou-me e fez dos meus dias horas completas desprovidas de solidão, olhava-me sorridente dos papéis impressos das várias fotografias. Impressionante como alguém que preenche o seu dia pode, de repente, jogá-lo diretamente para dentro da solidão interminável. Acho que esse é o mais perto que chegarei da imortalidade: a solidão interminável! Não que ela seja de fato interminável, mas como a solidão se arrasta pesadamente pelo tempo, essa é a sensação mais direta com o interminável, pois ela só acabará quando chegar ao fim... e esse fim vem sem aviso, mas vem de bom grado. Hoje sei disso...

Não entendam-me mal, não quero divagar sobre meus sentimentos, mas estes estão diretamente ligados aos fatos que me cercaram naquela semana. Vou contar-lhes tudo, como e da forma que eu vi e vivi, sejam apenas pacientes, como eu fui, mesmo querendo desesperadamente o meu fim, que podia, na verdade, significar um novo começo... de qualquer forma, eu esperei, na companhia da última coisa que me restava: livros.


   - 1. Estranhamente, dormi como um cordeirinho naquele dia, abraçado a uma de suas fotos.

   - 2. Não sonho, mas naquele dia sonhei. Sonhei que estávamos mais uma vez juntos, sentados em nossas poltronas, lendo, como no princípio de tudo. Quando tudo era perfeito.

   - 3. Café, acordei desesperado por um café.


Naquele novo dia, levando meu penúltimo livro - antes dos vinte últimos - saí pela rua escura, de sombras brandas da noite que envolvia vagarosamente o dia, como numa vingança por ter sido consumida pela luz do amanhecer anterior.

A velha não gritara com o beberrão nos últimos dois dias, mas o perfume insuportável da mulher atraente não parava de incomodar-me. Mesmo ela não tendo chegado em casa antes de eu ter saído, parecia que agora limpava a casa num pano embebido com aquele maldito perfume. Não importa, eu já tinha saído e isso era-me consolo suficiente. Tirei o livro do meu bolso do casaco, abri-o, li suas orelhas e comecei minha leitura enquanto caminhava pela calçada. Estava uma noite quente, mas não deixava nunca de usar meu chapéu e meu casaco.

Cheguei relativamente cedo ao meu bar/restaurante/lanchonete vinte e quatro horas preferido. Estava ansioso por saber se ele/ela voltaria para falar comigo sobre a vida, ou a morte. Estranho falar de morte com a Morte, mas percebi que é um assunto típico para esse tipo de encontro. Fui para o meu lugar de costume, sentei-me, pedi meu cobiçado café e continuei a leitura.


   - 1. Peituda e sovina no comando da cozinha, traduzindo: nada de comida, só café. Ainda dispunha dos meus biscoitinhos escondidos num dos bolsos do casaco.

   - 2. A garçonete ofereceu-me uma torta quentinha, mesmo sabendo que eu recusaria. Não gosto de doces, já lhe disse.

   - 3. Livro chato, mas o lerei da mesma forma.


"Olá, amigo, suponho que pensou que talvez eu não viria, certo?!" - perguntou-me curioso um jovem de uns trinta e poucos, de barba desgrenhada, cabelos encaracolados e desarrumados. E, sim, com aqueles enormes e brilhantes olhos azuis.

"Eu não penso em nada, só leio!"

Ele sorriu e sentou-se na mesma posição que gostava de ficar, com as mãos pousadas sobre a mesa. Encarou-me e esperou-me perguntar algo, acredito eu. Trajava roupas desleixadas, puídas e simples.

"Olá! Roupas novas?!" - disse-lhe.

"Não reconhece-me?"

"Claro que sim, és a Morte, como gosta de afirmar!"

"Não, estou falando de minha aparência, exceto pelos olhos, claro."

"Deveria conhecer?"

"Claro, sou seu vizinho!"

"Que vizinho?"

"Aquele que você ouve discutindo com a esposa todos os dias, o bêbado!"

Ah, a mulher que eu ouvia gritando todos os dias era a sua esposa! Pela voz sempre achei que era uma mulher mais velha, uma tia ou qualquer outra coisa, não esposa.

"Nunca o vi, só o ouvi!"

"Pois essa é sua aparência, gostou?!"

"Descuidado, meio... sujo... porque está 'vestindo-o'?"

"Ué, não soube?" - perguntou-me com falsa expectativa, pois era óbvio que sabia do meu desinteresse - "Ele matou a esposa e se matou em seguida, há duas noites. Pelo visto a amava, mas não suportava as brigas. Algo do tipo. Não os entendo com profundidade."

Isso explicava o silêncio dos últimos dias. Não importei-me, acreditei, mas olhando sua face, senti uma pena serena, passiva...

"Não fique assim, não leve sua mente para outros lugares e, principalmente, não venha com saudades do seu companheiro!"

"Sinto que você gosta de irritar-me, estou certo?" - perguntei chateado por ser criticado.

"Não, só não tenho muita paciência com coisas humanas!"

"Mas estranhamente reage como um humano quando é contrariado!" - instiguei-lhe.

"Você está ficando ousado, meu caro!" - olhou-me desafiadoramente.

"É, percebi que, por mais que você seja a morte, não pode fazer mais nada além de esperar, como nós humanos! Conforme-se!" - apunhalei-o.

Ele cerrou os punhos beligerante, não estava gostando nem um pouco da minha audácia.

"Proponho o seguinte" - comecei a dizer-lhe - "Que tal se conversássemos como adultos?, sem mistérios, sem problemas, quer dizer, sem maiores problemas além do fato de um reles humano estar conversando com a Morte?!"

Ele bufou para mim, com a cara irritada e desacreditada.

"Nem ele falou assim comigo, mesmo sendo imortal, ele nunca falou assim comigo!"

Não quis provocá-lo mais, não achei certo desmerecer a Morte, então fiquei mais pacífico e dei-lhe atenção:

"Você já conversou com ele como está fazendo comigo?"

"Algumas vezes... em períodos distintos, em épocas e lugares distintos" - respondeu-me um pouco mais tranquilo - "mas ele nunca soube com quem falava, nunca revelei-me como a Morte para ele, só para você."

Queria dizer-lhe que estava honrado, mas não senti nenhuma honra conversando com alguém que simplesmente transportava alguém de um ponto para o outro.

Mas isso era o que eu achava desse ser misterioso, ainda não o compreendia totalmente, pois eu não fazia ideia que a Morte brincava com todos nós das mais diversas formas e maneiras. Não sabia que aquela entidade zombava da vida e de todos nós seres vivos. Eu sequer pensava que ele estava jogando comigo, fazendo-me acreditar que tudo estava bem e próximo, que tudo estava confortável e prazeroso. Mas como eu disse, eu fui enganado e pagaria muito caro por ter desafiado a Morte...


Fatos:


   - 1. Eu continuei com meu café daquele dia, jogando conversa fora com uma entidade que, acreditava eu, sentia-se solitária e precisando de companhia.

   - 2. Descobriria que a Morte é tão ou mais poderosa do que a própria vida!

   - 3. As coisas estavam mudando, mal sabia eu que para pior...


   - 4. Onde estou com a cabeça? Nunca são mais do que três fatos...



continua...                  Para ler a próxima parte faça como o personagem, seja paciente!




terça-feira, 26 de maio de 2015

O esquecido - Conto VII




   Eram tristes lembranças de um passado recente, coisas desventurosas que eu não fazia mais questão de lembrar. E nessa necessidade de esquecer o que me fazia infeliz, acabei também esquecendo a graça. Foi mais ou menos assim que aconteceu, quer dizer, foi mais ou menos assim que eu lembro do que me aconteceu...

   Pascoal era um sujeito bem apessoado, dono de um comércio pertinho aqui de casa, homem bom, de bons costumes. Seu estabelecimento vendia coisas simples que pessoas das mais diversificadas idades poderiam querer. E eu queria uma coisa, uma pomada. Levantei-me triste e dolorido, tentando não recordar de mais nada que me fizesse sofrer e fui para a venda do Pascoal. 

   "Tarde, Pascoal! Como vai, amigo?" - cumprimentei com toda educação que me restava, deixando a dor nas nádegas se perderem nos espasmos. 

   "E o que é que tem de bom para se contar ou sentir, Justino?!" - respondeu-me amargamente, meu vizinho e também amigo de bairro, Pascoal. 

   Estranhei seu descaso e como me tratou, sendo que nunca havia acontecido coisa similar na vida, e fui direto ao ponto, já que era só isso que me restava fazer:

   "Veja logo uma pomada para assaduras aí, estou com pressa."

   "Tome! São dez contos!"

   "E desde quando uma pomada custou tanto?"

   "A farmácia do Agenilson fica mais três quarteirões saindo daqui e virando à esquerda!"

   "Ô, diabos, homem, o que foi que te mordeu?"

   "Vai levar a pomada ou não?"

   "Vixe! Semana passada não era nem cinco contos, viu?!"

   "Mas aumentou nessa segunda! Quer ou não quê, homem?"

   "Quero pelo preço justo!"

   "Justo é o preço que se paga! São dez contos!"

   "Demônio de homem ruim! Não sei o que te deu, peste, mas passa essa merda de pomada pra cá. Tome seu dinheiro, sovina!!!"

   "Tome seu troco, homem! Pra quê sair correndo e dolorido, pegue aqui! Tome!"

   "Quê isso?"

   "Seu troco!"

   "Aqui tem cinco conto!"

   "Tem!"

   "Lazarento, você não disse que a porcaria da pomada custava dez contos?"

   "Calma lá, compadre Justino! A pomada custava quase cinco, segunda teve aumento, agora é cinco!"

   "Você tá querendo me endoidar, diacho?! Pois foi agorinha mesmo que você me disse que a pomada custava dez e que se eu não quisesse era pra ir pagar lá na farmácia do Agenilson!"

   "Está faltando cinco contos!"

   "Quê????"

   "Do dinheiro da pomada, homem! Você só me deu cinco!"

   "TÁ MALUCO, PASCOAL??? Você acabou de me dar o troco e... ah!, vá pra merda! Engole essa bosta de pomada e limpe seu rabo com a gorjeta que lhe dei! Safado!"

   Saí enfurecido porta afora e peguei a esquerda. Andei três quarteirões e cheguei na farmácia do Agenilson.

   "Agenilson, tarde! Me vê uma pomada, daquelas pra assadura, por obséquio! - disse seco.

   Nisso uma senhora apareceu do lado e me falou:

   "Justino?! O que está fazendo aqui na farmácia? Você não ia pro jogo homem?"

   "Que jogo, mulher?!" - gritei sem paciência porque aquela era minha esposa.

   "Trapirandas contra Junitubas, homem, o jogo da sua vida! A desforra!"

   "Quem diabos é isso, mulher, tá louca??? Vim comprar pomada para assadura, meu saco tá coçando e não estou aguentando mais me sentar. Eu já te disse isso antes de sair de casa, tá variando, tá?!"

   "Ô, Justino, homem de Deus, você é que tá biruta das cachola, essa assadura aí é da semana passada, lembra não?!"

   "Hein?! Como assim, tá querendo me irritar mais ainda, mulher?!"

   "Home, você não se alembra do jogo da semana passada, que você e o Pascoal ficaram vendo lá na sala até a última cobrança de pênalti depois da prorrogação? Passou horas sentando, bebendo e fumando, e gritando e reclamando... Lembra não?

   "Lembro não!"

   "Você ficou a noite inteirinha brigando com o Pascoal porque ele aceitou a derrota do Trapirandas no último pênalti que o juiz roubou... Lembra não?"

   "Lembro não!"

   "Você brigou com seu amigo por causa de bola, home, coisa que não se faz. Ficou o dia seguinte todo com a bunda assada de passar o jogo todo arredando as cadêra pra frente e arredando as cadêra pra trás... Lembra não?"

   "Lembro n... ah, mulher, pare de inventar modice! Tu é que tá variando, besta!!!"

   "Vem, home, vou te levar pra casa. Tu não tá muito bem não! Vem comigo, vem?!" - ela me deu a mão e eu segurei na mão da patroa, confuso, mas segui a megera de volta pra casa. 

   "Home do céu, tu não tá bom das cachola mesmo não. Queria que queria ver o jogo de hoje, lembra não?"

   "Lembro não, muié!"

   "Tinha até comprado o ingresso pra assistir no campo, home! Lem..."

   "Lembro não, muié, para de falar tontice! Diacho!"

   "Tadinho, doidô de vez!"

   Caminhamos os três quarteirões até chegarmos perto de casa e a patroa falou:

   "Só vamos passar lá no Justino rapidinho, tenho que comprar a sua pomada de assaduras que ainda tá cedinho e toda segunda tem aumento!"

   "QUE???"

   "Sua pomada, Pascoal, tá variando, home?"

   "Que pomada, muié?! Quê Pascoal?!"

   "Do jogo de ontem que você ficou assistindo com o Justino e se assou todo no traseiro! Lembra não, Pascoal?!"

    "Que Pascoal o quê, tá maluca?!"

    "Pascoal, pare de doidice, home, bôra pra casa, anda!"

    "Meu nome é Justino! Doida!"

    "Ixi, home, melhor te levar pro doutor, to vendo que hoje tu já até esqueceu a tua graça!"

 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sonhando - Conto VI (revisão)





   Nesse último conto antigo e curto, eu apresento uma teoria que por anos me assolou. Quer dizer, eu passeio por esse tema que muitas pessoas já abordaram. Seus sonhos são reais? Quando você saberá se está dormindo ou se está acordado? Afinal, o que é a realidade? Vale a pena continuar dormindo e sonhando? Enfim, leiam, reflitam sobre e também comentem o que acharam do texto. Bons sonhos para todos...



Sonhando



   Então, tudo não passou de um sonho... parecia tão real que ocupei-me de esconder, temendo o pior. Na verdade, tudo realmente parecia um sonho, mas no furor daquela ação tive medo de pensar assim. Quantas não eram as evidências de que eu estava sonhando e mesmo assim hesitei? Acovardei-me... tenho vergonha de caminhar entre as pessoas lembrando daquilo que aconteceu. Tenho vergonha de encarar a realidade, tenho vergonha de encarar os sonhos... ou seriam pesadelos? Só sei que a perdi... Um fluxo de pensamento qualquer me apavora, me sinto sensível, preocupado sempre... sei que preciso superar, mas não tiro a imagem dela da minha mente. Vendo-a desmanchar-se com os braços estendidos em minha direção a alongar-se pelo efeito rotatório do que se esvai... Aquela imagem ainda me causa dor... e pensar nisso não é opcional. Cada som e movimento à minha volta. Tudo me faz pensar nela. Seus olhos fundos e inspiradores, clamando por mim. Nada ficou no lugar. Tudo se desmanchou, se desfez...

   Por que ainda vejo seu rosto? Quantos sonhos não estivemos juntos? Quanto tempo já não se passou? Nem tanto assim... pareciam anos, mas na verdade eu não creio que chegou a tanto tempo... mais de um dia com certeza... mas menos de um ano. Enfim, tudo agora é pó. O pó já não sofre com o tempo... e ainda tenho dúvidas... como posso sentir e sofrer se já sou pó? 

   O fato é que, mesmo não querendo, eu ainda vivo aqui e lá, no mundo dos sonhos. Nunca mais a vi naquele mundo, mas sempre quando acordo, penso ter visto. Quando ando nas ruas, temeroso, sempre imagino que a estou vendo. Cada mulher que olha-me nos olhos. Cada fio de cabelo liso que me lembra o seu. Aquela dor profunda se insere em mim e vai me rasgando a ponto de me fazer perder o equilíbrio, cambalear. As pessoas me olham torto, como se eu fosse um bêbado ou um insano qualquer. Acabo sendo mesmo, de uma forma ou de outra. Um bêbado de amor, ensandecido de paixão.

   As noites são as piores fases do dia. Minha tensão vai aumentando e me deixando incomodado, ansioso. Olho-me no espelho todas as noites antes de dormir. Talvez faça isso para verificar se ainda estou aqui... vejo meus olhos cansados e mal dormidos, avermelhados e irritados. Sinto falta de mim mesmo, de quando me sentia bem quase sempre. Sinto falta de mim... sinto minha falta... não, só sinto falta dela... e assim eu faço, todas as noites... descanso minha cabeça sobre o travesseiro e faço uma última prece: encontrá-la novamente nos meus sonhos.

   Passo muitas horas acordado, revirando na cama, buscando o sono. Nesse tempo todo, a antiga e nunca desgastada imagem sempre está lá, me atormentando. Seu rosto se distorcendo novamente no mesmo redemoinho... O sono chega. Ao entrar nele, nada mais acontece. O mesmo vazio de sempre depois que ela se foi. A agonia toma conta do meu sono. Sei o que quero sonhar, consigo pensar dentro do sonho, mas lá não existem imagens... nada de ver o seu rosto, nada de me alegrar com seu sorriso, nada de sentir seu toque, nada de me entorpecer em seus lábios, nada, nada, nada de coisa nenhuma...

   Acordo novamente encharcado de suor, soluçando e sem fôlego. Ofegante, desesperadoramente tentando voltar à realidade... mas isso aqui é a realidade? E se for o oposto? E se eu estiver acordado quando estou sonhando e sonhando quando estou acordado? Verdade ou não, eu aprendi a viver num sonho e a dormir na realidade. Aprendi a tirar vantagem do que aconteceu comigo. Agora eu passo os dias sonhando com seu rosto, construindo novos encontros e momentos felizes. Assim, quando vou dormir, me despeço da sua imagem, e durmo tranquilo. Ansioso por acordar pensando nela. E assim consigo transformar minha vida de pó em algo substancial. Meu único medo é sonhar com ela novamente e perdê-la de meus pensamentos quando estiver acordado... mas não mais deixo isso me afligir. Agora, o importante é continuar sonhando acordado... 



Publicado originalmente no dia 9 de junho de 2011, quinta-feira.


 

Enquanto dormia - Conto V (revisão)

Viagens da minha mente imaginativa? Seria um sonho? Quem nunca sonhou estar voando um dia? Eis o meu quinto conto revisado:

Enquanto dormia



   Corria desesperadoramente pelo meio do mato. Era alto e cheio de árvores. Começava a escurecer e quase já não via nada. Meu fôlego ia pras cucuias e mesmo assim eu não parava de correr. Sentia minhas pernas puxarem e repuxarem. As fisgadas aumentavam...

   De repente, eu caí. Uma queda interminável. Sentia meus braços batendo em alguma coisa. Por fim aterrissei com força no que parecia ser água. A escuridão já não me deixava ver mais nada. A correnteza me arrastou e lutei para ficar com a cabeça para fora d'água. Agora os meus pulmões ardiam. Meus braços batiam em pedras. Uma pancada forte na cabeça. Senti-me flutuando e, quando dei por mim, estava caindo novamente. 

   Era uma queda d’água gigantesca. Eu estava acima das nuvens. Enquanto caia podia vê-las se aproximando rapidamente. Ventava tanto que sentia meu corpo se enxugando. Não podia acreditar, estava planando. Ainda em queda, mas com direção. Pensei no quanto seria bom se eu pudesse tocar as nuvens e, com um simples movimento, planei por sobre estas. 

   Meu corpo foi se endireitando e colei meus braços junto às coxas. Peguei mais velocidade. Agora estava voando na horizontal. Bem rente às nuvens. Emparelhado a elas. As pontas dos meus pés as tocavam. A lua brilhava forte no céu. Perdi a noção de quanto tempo eu já estava voando. Voar era saboroso. 

   Comecei a fazer peripécias no ar e, à medida que rodava e fazia loops, eu gritava a plenos pulmões. Era muito divertido. Estava sorrindo. Decidi atravessar as nuvens e fazer rasantes no solo. Fiz um mergulho em parafuso. Gritando! Emocionado! A velocidade era tanta que meus olhos não viam nada. Cheios de lágrimas. Esforcei-me novamente para frear a descida e nivelar o corpo. Consegui bem a tempo, quando quase choquei-me com as águas do mar. 

   Percebi minha nova diversão e minha nova oportunidade. Não a desperdicei. Fiz o mesmo que com as nuvens e deixei meus pés tocarem a água. Estava fria. Percebi que não usava mais os meus sapatos. Percebi que não estava mais com minhas roupas. Estava nu. Voando por sobre o oceano. 

   Avistei uma ilha à minha frente, parecia com o lugar onde eu morava. Havia uma luz vindo por detrás de uma grande montanha. Sobrevoei a ilha em direção à luz. Era uma grande festa na praia. Pousei bem ao lado da enorme fogueira que ardia reluzente. As pessoas me olhavam assustadas. Eu sorria. Logo estavam todos se divertindo novamente. Uma bela mulher chegou perto de mim e perguntou por que eu não usava roupas. Respondi perguntando por que é que todos eles usavam. As pessoas ao meu redor gritaram e tiraram suas roupas. Aos poucos todos ficaram nus. Só havia diversão. Nada me incomodava mais. 

   Olhei nos olhos da linda mulher e a beijei. Senti seu corpo quente junto ao meu e quando abri os olhos, estava novamente no meio de uma enorme mata. Dessa vez, diferente de todas que eu já estivera. Comecei a correr outra vez. Parei subitamente e corri para o outro lado. 

   Avistei uma enorme pedra e corri para ela. Saltei para cima dela facilmente. Dobrei os joelhos e tomei impulso e saltei para cima. Meu corpo foi acelerando até que percebi que estava muito alto. Quis ir mais alto e aumentei a velocidade nesse meu novo voo. Ultrapassei as nuvens e continuei subindo. Cada vez mais rápido. O vento estava congelante e, mesmo assim, não desisti de subir mais. O ar era rarefeito e ficava difícil respirar. 

   Acelerei mais e resolvi parar de respirar. Estava tão alto que percebi que já estava tocando o espaço. Olhei para lua, que estava enorme, e voei para ela. Não havia mais vento, mas o frio continuava. Eu sorria e até tentei gritar novamente, mas não consegui. Não tinha mais ar em meus pulmões. Deixei minha cara de alegre no rosto e fui para lua. 

   Sentia sua luz tocando mais forte em meu rosto. Quanto mais eu me aproximava mais sua luz abrandava e só restou, por fim, seu solo, que toquei com meus pés descalços. Deixei minhas pegadas naquele solo fofo e saltei com um astronauta. Percorri uma grande distância daquela forma. Depois de um tempo, senti-me entediado e soltei forte, alçando novo voo, esse agora, de volta para casa.

   Acelerei mais que das outras vezes. Queria sentir meu corpo arder. Desci como um meteoro até a ilha onde morava. Decidi que não queria parar e como um míssil atingi o solo. Houve um enorme estrondo e o chão tremeu junto comigo. Quando levantei da cratera, ouvi um enorme silencio. Fechei meus olhos e quando os abri novamente, estava deitado em meu colchão...

Tirei o edredom de cima do meu corpo nu e caminhei até a janela do meu quarto. Olhei para fora e vi que ainda era noite. Abri a janela e vi as luzes da cidade lá embaixo. Pulei a janela para o lado de fora. Sorri novamente e percebi o que estava acontecendo. Subi na murada do precipício e saltei. Por um instante, jurava que eu estava sonhando...



Publicado originalmente no dia 23 de janeiro de 2011, domingo.


 

sábado, 23 de maio de 2015

Uma vida - Conto IV (revisão)


Triste história, só tenho isso a dizer:



Uma vida


   Por mais que fosse incrível para ele estar feliz ali, naquele momento, entusiasmou-se e se deixou levar pela sensação. Dividia o que tinha com seu irmão mais novo. Nunca faltara em nada para seu irmão, nem sequer em um instante. Vendo-o ali deitado como um anjinho o tranquilizava. Era muito bom ver o garoto, dia após dia, crescendo e crescendo sem parar. Já estava quase na altura do seu ombro. Mediam sempre. O caçula sempre pedia: “irmão, vamos medir de novo, você mediu errado da última vez!” e terminava o pedido em um sorriso que se eternizava por todo momento. 

    Ele adorava o irmão como a um filho. Eram carne e unha. Preferia ficar a sós com o irmão a estar com qualquer outra pessoa. E nunca deixou de ser assim, desde o dia que haviam perdido seus pais naquele trágico acidente. Passou a mão pelos cabelos lisos e loiros do irmão. Sorria ao fazer isso, como adorava aquilo. Daria tudo, absolutamente tudo, pelo irmão. 

    Quantas não foram as vezes que passou fome, só para ver seu irmão bem nutrido. Seu irmão nunca sentira fome na vida. Jamais deixaria isso acontecer. Preferia matar do que ver o moleque sofrer. E não parecia que ele estivesse sofrendo, ali, naquele instante. 

   Dormia? Não sabia, sentia-o adormecido. Mesmo com toda aquela gente fazendo barulho. Segurava a cabeça do irmãozinho apoiada no colo. Acariciava seus cabelos lisinhos. Amava muito aquele menino. Lembrou do primeiro dia que ficaram sozinhos em casa, quando seus pais tiveram que sair apressadamente. Passaram aquele primeiro dia todo abraçados um no outro. Vez ou outra, o menor chorava muito e ele o agradava como podia. Nunca perdia a paciência com ele. Nunca! 

    Aqueles eram bons tempos... Um tempo antes de perderem a casa. Antes de serem levados pelo juizado de menores. Antes de serem levados para o orfanato, ouvindo todos os dias que seriam separados e adotados por famílias diferentes. Aquilo não podia acontecer. Ele tinha certeza que seus pais iriam querer que ele cuidasse do irmão. E assim o fez. No segundo dia de orfanato, depois de assaltar o depósito e juntar o que era preciso para ficarem bem, tirou o menino dali e foram para bem longe. Não tinham mais parentes, não tinham ninguém a quem recorrer. 

   Agora, as pessoas à sua volta gritavam e aquilo o incomodava muito. Não percebiam que o irmãozinho precisava dormir e descansar. Abaixou e beijou a testa do garoto dizendo baixinho: “tudo vai ficar bem, você sabe disso, eu estou aqui...” 

    Nada o deixava mais furioso do que outros se metendo no jeito que cuidava do irmão. Até alfabetizá-lo ele conseguiu sozinho. No dia que ele leu o primeiro livrinho sozinho foi uma festa só. Comeram pizza naquele dia, disso ele não esquecia. 

   Mesmo que não tivessem uma casa, mesmo que morassem nas ruas, nunca deixara seu irmão debaixo de céu aberto em um dia de chuva. Nunca o deixou passar frio nem nenhuma dificuldade. Uma vez, lembrava bem, enfrentou três garotos maiores do que ele só por causa do irmão. Apanhou muito, mas expulsou os três de perto do seu protegido. 

   Alguém tentou tocar a face de seu irmão. Expulsou a mão com um tapa e gritou: “ninguém toca nele!” 

   Ouvia a sirene cada vez mais forte. Alguém disse ao longe: “o menino parece estar morto, mas o irmão não deixa ninguém chegar perto” 

   “Morto? Não! Nunca!” pensava enquanto abraçava o irmão mais forte do que antes. Rezava sem saber rezar e implorava que tudo terminasse bem e que, pudessem sair dali para tomar um sorvete, como faziam na maioria das tardes. 

   “O que aconteceu, filho?” – um sujeito de colete brilhante e segurando uma maleta perguntou. 

   “Acho que foi atropelado” – disse uma voz ao longe. 

   “Garoto, vou fazer tudo por seu irmão... mas precisa se afastar” – disse o homem da maleta.

   “Faça o que for preciso, mas comigo aqui do lado. Se ele acorda e não me vê por perto, apronta um berreiro...” – disse sorrindo e abriu espaço para o homem, sem contudo largar a mão do irmão que representava tudo em sua vida e que, mesmo morto, parecia apenas dormir sossegado.


Publicado originalmente no dia 11 de janeiro de 2011, terça-feira.


 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O início de todas as coisas - Conto III (revisão)




 Continuando aquele lance de contos curtos... Descobri que eu já tinha escrito até o número seis, então, depois de repostar todos eles, começarei a postar os outros que eu já escrevi no papel e estarão aqui para serem lidos em breve. Mais um conto, esse eu diria que, cômico! Deveria se chamar a maldição do número três, mas deixo o nome original mesmo para não dar confusão.



O início de todas as coisas 



   Num dia – um desses comuns – ouvi alguém dizer: “o número três é o início de todas as coisas”. Aquilo não saiu mais da minha cabeça. Onde quer que eu fosse, lá estava ele, o número três. Não achava isso ruim. Tampouco o número aparecia, do nada, como num thriller de horror. Eu é que o localizava em quase todas as coisas que via. Era até divertido no início, mas algo faltava nisso tudo. 

   Como podia o três ser o início de todas as coisas se tudo começava do número um, ou às vezes do zero? Aquilo me deixou intrigado e perdi o sono uma, duas, três vezes! Exatamente três vezes. No quarto dia eu dormi como um cordeirinho. Sei que era psicológico, ao menos foi o que eu pensei no início. Levantava feliz num dia e assim continuava até o terceiro. Não existia nada que continuasse por mais de três dias. Absolutamente nada. Resolvi então estudar a extensão de todos esses acontecimentos...

   Comecei com algo fácil, comum. Tomei banho por três dias seguidos, demoradamente, lavando minha cabeça com bastante xampu. Ao sair do banho, logo no primeiro dia, propus a mim mesmo a não tomar banho no dia seguinte. Pois não é que no dia seguinte fez um calor de rachar e mesmo não querendo eu tive que tomar um banho. Até então eu pensei: “vou tomar banho de outro jeito”. Nada! Nem dei conta de mim, só sei que percebi que havia repetido tudo da mesma forma do dia anterior. Chocado e sobressaltado, não me rendi e planejei tomar banho no dia seguinte e em todos os outros para provar que conseguia quebrar o estigma do três. Terminado o banho do terceiro dia senti-me feliz por saber que quem havia decidido aquilo havia sido eu mesmo. Passei a noite acordado e entrei na madrugada. 

   Como já era um outro dia, pensei em já tomar o tal banho. No realizar das coisas, acabei me sentindo cansado e dormi. Quando acordei, já era madrugado do dia seguinte. Eu havia passado o dia todo dormindo. E não foi só isso, duas horas depois que eu tinha acabado de acordar, me deu um sono tão forte que acabei adormecendo novamente. Resultado: acordei na madrugada do dia seguinte e voltei a dormir duas horas depois. Ao final do terceiro dia – dormindo sem parar e sabendo que isso não se repetiria – tentei algo que teria mais controle: comer uma pizza de mussarela – a mussarela foi um toque genial, pois imaginei que todos os outros ingredientes poderiam acabar menos esse. 

   Pedi a pizza no primeiro dia, no segundo e no terceiro. Quando chegou ao quarto dia, estava pronto para ligar para pizzaria quando peguei o telefone do gancho e percebi que estava cortado. Minha conta estava vencida. Eu estava dormindo no dia do vencimento e não me lembrei de pagar. Não vi problema nenhum. Peguei a chave de casa e saí para a pizzaria mais perto da minha casa. Fechada. Comecei a ficar nervoso já nessa primeira pizzaria, mas, ao chegar na segunda, notei que estava aberta e que minha sorte estava para mudar. 

   Pois não é que a segunda havia acabado justamente a mussarela e estava fechando por falta de queijo?! Perguntei qual era a pizzaria mais próxima dali e fui para lá. Essa estava fechada por causa de um aniversário. Tentei insistir, ofereci ao segurança cem pratas para me trazer um pedaço de uma pizza de mussarela. E ele me arremessou para fora do lugar e ainda ficou com minha nota. Rodei a cidade aquele dia todo, indo em todas as pizzarias possíveis e nada. 

   Duas das pizzarias, para vocês terem uma ideia, estavam ardendo em chamas. Resolvi parar a busca e aceitar o número três em minha vida, antes que algum outro estabelecimento queimasse. Cheguei tarde em casa e quando abri a geladeira para comer alguma coisa, encontrei-a vazia. Resultado: fiquei três dias sem comer. Isso não é nada, não quero nem falar das vezes que fui roubado, atacado por cachorros, espancado por um lutador num bar e principalmente, do dia que achei que a mulher que estava me dando mole – e que levei para um banho de espuma na banheira da minha casa – era na verdade um travesti... maldito número três! 




Publicado originalmente no dia 1 de janeiro de 2011, sábado.




quinta-feira, 21 de maio de 2015

Notícia - Conto II (revisão)



    Aqui vai o meu segundo conto curtinho, de apenas uma página. História bacana e emocionante. Uma ideia que, hoje, não sei dizer de onde veio a inspiração. Eu gostei muito desse texto, fiz uma revisão mínima, e repostei, leiam (por favor) e me digam o que acharam:


 Notícia 

 

   Em pensar que às vezes nem sempre é bom saber o que se passa consigo mesmo. Não foi diferente comigo. Um dia, estava eu nos meus afazeres do trabalho – eu trabalhava num Jornal, organizando e formatando páginas dos periódicos – quando li uma notícia que me chamou muito a atenção. Era de um dos repórteres do serviço, um dos novos. Eu o conhecia pessoalmente – afinal, quem eu não conhecia? Chamava-se Carlos. Era um rapaz recém formado. Não tinha vínculos com o Jornal ainda, estava estagiando, de experiência. 

   Bom, Carlos trabalhava ali há quase um mês e meio. Mesmo assim, eu já o conhecia suficientemente para chocar-me com a notícia que acabara de ler. Imprimi em uma lauda e reli detalhadamente o que já havia lido duas vezes pela tela do computador. Era inacreditável. Fiquei perplexo e estupefato. Não me contentando, reli novamente e depois ainda uma outra vez. Quando, insatisfeito com a leitura, tentei reler mais uma vez e não consegui, pois minhas mãos estavam frouxas. 

   Sentei-me sem ao menos ter notado que havia levantando. Cocei a cabeça matutando as ideias. Meus olhos giravam do papel para a tela, do papel para a mesa, do papel para as pessoas a minha volta. Meu transtorno me deixou suado, quase pingando. Procurei minha garrafinha de água e pela primeira vez, em trinta anos de serviço, eu não a encontrei. Abalado com a notícia que transitava meus pensamentos, comecei a desforrar minha impaciência na garrafa sumida. Olhei até debaixo dos papéis onde seu volume não caberia. Revirei a minha mesa como se isso fosse me trazer paz e sossego. Por fim, quando minha mesa já estava um caos, lembrei-me do Carlos e de que fora ele quem havia escrito a notícia que transmutara a minha vida. Num passe de mágicas, a garrafinha sumida permaneceu como antes: sumida. Minha total atenção agora era para aquele sujeito que, pensando bem, eu não gostava quase nada e mal conhecia.

Levantei de um pulo da cadeira – a qual eu nem sequer havia percebido que estava sentado – já gritando pelo Carlos. O barulho era uma coisa tão comum na redação que sequer me ouviram chamando seu nome. Repeti com mais ênfase: “ô, Caaarlos” – até alonguei sua primeira vogal como a testar-lhe a acentuação da palavra. Novamente não me deram ouvidos. Comecei a rodar minha cabeça de um lado para o outro. “Onde anda aquele maldito moleque?” - pensei comigo mesmo. 

   Não o via por ali. O jeito era rodar o local todo no seu encalço. Assim o fiz, procurei-o primeiramente na sua mesa. Nada daquele peste. Depois fui até a cozinha – pensei que como estava perto da hora do lanche que ele poderia estar por ali. Não estava. Lembrei-me daquele ditado idiota que todos sempre usam – inclusive eu – ‘quem tem boca vai a Roma’, e comecei a perguntar pelo Carlos. O problema era que todos estavam mais ocupados do que o normal naquele dia. Ninguém parava pra me responder e isso estava me matando. 

   Cansado de rodar de lá pra cá sentei-me num banquinho perto dos banheiros. Eis que sai de lá de dentro do banheiro, o Rodrigo – amigo de faculdade do Carlos – conversando com um dos chefes da redação. Prestei atenção no que diziam, esperando minha vez para poder perguntar do fulano e pesquei uma frase solta: “...coitado do Carlos. Ficou em casa arrasado com o fato, mas, mesmo assim, fez questão de escrever a nota e enviar pra redação. Isso é que é amigo!” - disse o chefe do Rodrigo - "Ele se afeiçoou mesmo ao Souza, né?! E em tão pouco tempo..."

   "O Carlos sempre disse que o Souza era o pai que ele nunca teve!" - disse o Rodrigo pro seu chefe.

  “Então o danado estava em casa? Que molenga! Escreve um absurdo daqueles e ainda fica em casa como se fosse vítima.” – falei. 

    Antes que o Rodrigo pudesse se afastar, ouvi o Armando gritando lá do outro setor: 

 “Ô, Digão! Quem vai limpar a mesa do Souza? Tá tudo esparramado.” 

   Só me faltava aquela; confuso, mas nervoso, interpelei: “que limpar a minha mesa o quê, ou?!” 

   Mas não me deram ouvidos, e foi o chefe do Rodrigo quem respondeu: 

 “Deixa tudo aí, Armando. A esposa do falecido vem buscar tudo hoje ainda. Não esquece de fazer uma cópia da homenagem que o Carlos escreveu pro Souza, tá? Vamos ler lá no velório!” 

   Na hora eu pensei: “Até que o Carlos não era de todo um mau sujeito.” 





Publicado originalmente no dia 12 de dezembro de 2010, domingo.



quarta-feira, 20 de maio de 2015

A criação - Conto I (revisão)

   


   Faz algum tempo que eu queria repostar esses pequenos contos, isolados, com histórias fechadas, sem continuação nenhuma (ufa!!). Eis então a deixa: pois fiz outros contos curtos, de uma página só, no máximo uma e meia e, antes de postá-los, queria mostrar esse antigos aqui. Tratava-se de um acordo com um amigo (vocês lerão sobre isso abaixo) que não vingou (como muitas coisas não vingaram, normal). Mas a ideia era boa, então eu continuei por cerca de cinco contos apenas. Mas agora eu me empolguei novamente e vou dar sequência à série, pois preciso aprender a fazer histórias concisas que se fecham e não me estender por páginas demais. Bom, leiam e digam-me o que acharam, por favor. Abraço a todos e até os próximos contos (esses curtos e fechados e também os longos e continuados)!



A criação 

  
   Um dia, dois amigos universitários – um mais velho e o outro nem tanto – decidiram escrever cem contos cada um. Ante de começarem os contos, durante uma reunião entre eles dois, acertaram que nenhum desses contos passaria de uma página, esse foi o primeiro termo. Entre outras coisas, não conseguiram estipular em que tipo de histórias transitariam então estas seriam livres. Acertadas as ideias postaram-se a matutar tramas para seus respectivos enredos. Cada qual investiria pesadamente em suas capacidades literárias.

   Um dos dois amigos, sentado de frente ao seu teclado, pensou: “como criar tantos contos em tão pouco tempo?” Ah! Claro, esqueci-me de mencionar que planejaram escrevê-los antes do início do novo período letivo. Ou seja; no máximo em noventa dias. Um deles comentou: “É tempo de sobra, afinal é menos do que dois contos por dia.” O outro apenas concordou naquela sua chatice incognoscível. O primeiro suspeitou naquele instante que, o segundo, provavelmente, desistiria – era muito comum para o segundo desistir das coisas. – O outro não entendia o porquê daquela fragilidade perseverante de seu amigo. Entendia muito menos por que insistia em tentar novos projetos com ele – já não era a primeira empreitada desfeita. – Pensou até que, ao escrever coisa semelhante, fizesse o segundo chatear-se só com um comentário desses. Mesmo assim o fez – rogando baixo que seu amigo não desistisse dessa vez.

   Assim sendo, estava lá o primeiro, sentando frente ao seu teclado – os dedos ávidos por digitar as teclas – concentrado em como iniciaria seu primeiro conto. Pensou nas circunstâncias do seu dia a dia. O tempo correndo e as barreiras aumentando. Era um latido aqui, um resmungo ali; uma novela chata com péssimos atores a praguejar ao lado; familiares de cá para lá onde, outrora, não havia nenhum; enfim, todo tipo de inconveniências. Pensou ele: “excelente oportunidade de superação!” E com esse pensamento em mente tratou de produzir algo "lível". Convenhamos; escrever não era tão difícil assim, mas também não era nada fácil.

   Eis que uma fantástica (nem tanto assim) ideia lhe surgiu diante de seus dedos. Começaria seu primeiro conto ficcionando sua própria experiência real. Relembrou passo a passo a conversa que tivera com seu amigo. Elaborou mais alguns detalhes, com calma e paciência. Em seguida, discursou mentalmente palavras que iriam compor seu conto. Olhou para tela em branco do monitor e imaginou um parágrafo surgindo alí. Sentiu as primeiras palavras sendo transmitidas de seu cérebro para seus dedos e digitou: “Um dia, dois amigos universitários – um mais velho e o outro nem tanto...” 



Publicado originalmente no dia 7 de dezembro de 2010, terça-feira.



quarta-feira, 13 de maio de 2015

A indubitável, mas questionável, história de All, o Orate. (Parte II)



Ainda hoje não sei distinguir o que me foi contado ou o que eu criei dessa história, mas acredito que seja ela toda verdadeira. Ao menos a parte que lhes conto, já o que All contou, não posso garantir nada. Mas ouçam, é uma bela história.


Eu estava curioso para ouvir o restante da história e, naquele tempo, não fazia ideia de quanto tempo levaria. A bem da verdade eu acreditava que seria curta, que resumiria-se apenas àquele ato, mas estava irrevogavelmente enganado. All não era um homem de poucas palavras nem de curtas aventuras, posicionava-se estoicamente perante seus espectadores e arrebatava todos com seus percalços.

"... tropas inteiras dos exércitos de Lughar, o medonho, cercavam-nos, não havia possibilidade ínfima de fuga. Fileiras e mais fileiras de Buggars por todo o vale, da porta de nossas casas até as encostas das Colinas Trigêmeas ao Norte. Centenas de milhares deles, trajando suas couraças de Pittar - uma espécie de monstro marinho de pele dura como aço negro - segurando suas lanças de corte estendido, com lâminas que iam da empunhadura até a ponta em sinuosas fincas feitas para retalhar o inimigo ou rasgar armaduras como papel.

Hoje vocês vivem em segurança
e no conforto de suas casas, livres de um Buggar ou um Ror, cercados apenas de homens comuns. Livres da magia repugnante que assolava nossas terras na minha infância. Perguntem ao velho Londhon, ou a mulher da casa de pedra, a velha Iva, eles lhes contarão sobre toda a podridão que vagava por nossa era. Embora eles tenham nascido quase no fim da minha adolescência, quando o mundo já podia respirar aliviado novamente."

O orate engoliu secamente, alguém estendeu-lhe uma cumbuca com água, era Bondodir, seu mais ávido ouvinte. All bebeu demoradamente e todos esperaram ansiosos. Aproveitei a pausa e surrupiei um pouco de leite de Anöntrella de uma mulher distraída pela história. Ela puxava um carrinho com algumas vasilhas da bebida, de certo estava levando para o queijeiro, mas demorou-se entre outros tantos. Tomei o leite fazendo caretas, pois estava denso como deveria estar para a fabricação de queijos daquele tipo, um gosto amargado e salgado, mas mesmo assim, melhor do que a água salobre que tinha tomado há pouco.

"Aqueles demônios chegaram de uma só vez, por todos os lados. Os poucos homens corajosos da vila foram os primeiros a morrer, ou foram mastigados por um Ror, ou transpassados por uma lança Buggar. Ouvíamos seus gritos que eram logo abafados pelos jorros de sangue de suas gargantas. Eu e meus amigos, continuamos escondidos, mas Rors são farejadores, quer dizer, depois descobri que mediam nossas temperaturas corporais através de glândulas localizadas sobre seus olhos. E era assim que eles nos achavam. 

Não demorou muito para que fôssemos encontrados. Primeiro ouvimos o trovejar da marcha passando pelas casas da vila, alguns gritos abafados, paredes ruindo, portas se partindo, som de ferro cortando carne e, por fim, a parede de nosso porão secreto ruiu. Dorovah, meu amigo, foi puxado para fora por uma pata gigantesca. Até hoje lembro-me do rastro de suas tripas, que iam de onde estava até a parede derrubada." - All suspirou sofrido.

"Cale a boca, velho!" - gritou um dos meus perseguidores. "Queremos o fugitivo do palacete do Inigualável S., sabemos que ele ainda está por aqui!" - gritou mais alto, chamando a atenção de todos. "A praça está cercada, verme de Tranteira, você não nos escapará!!!" - berrou.

Um novo tumulto começou. Estavam procurando-me, claro, mas rastejei para perto de uma poça d'água parada e esfreguei meu rosto, braços e pernas naquela lama pútrida enquanto muitos gritavam indignados. Sentei-me - ainda cobrindo-me com o manto roubado - perto de outros pedintes e miseráveis do grupo que estavam a uns cinco passos da turba e postei-me em protesto melancólico como os demais.

Os guardas do Indefectível S. começaram a expor sua violência dando pancadas em alguns dos homens ali, meros espectadores desafortunados. Claro, também havia alguns senhorios menos propensos ao trabalho que matavam algumas de suas horas ouvindo as destemidas histórias heroicas de All. A multidão começou a se espalhar. Alguns iam-se embora às pancadas, outros fugiam antes de tomá-las, mas estavam se dispersando. Eu precisava fazer alguma coisa para garantir o continuidade de minha vida.

"Alderdan, Piltrin, Astor, Janllen, e todos vocês, parem agora mesmo!" - impôs-se All entre seus ouvintes e os guardas abrutalhados. - "Eu sou e fui amigo de seus pais e seus avós, como é que têm coragem de tumultuar uma praça com pessoas comuns, como vocês mesmos, em nome de um homem como seu patrão? Esqueceu-se de quem levava seus remédios quando era uma criança doente, Astor? Janllen!, seus pais ainda frequentam essa praça, esqueceu-se disso? Piltrin, como pode deixar de lado todos os dias de conversas afortunadas que tivemos no ano passado? Hein, Alderdan, não existe mais compaixão nesse coração enamorado que pediu-me conselhos sobre Rohra? Tratam-nos como desconhecidos, mas esquecem-se que somos uma grande comunidade de amigos!"

Um a um os homens foram se acalmando, os que estavam mais distantes, naquela correria toda, voltaram cautelosamente para seus lugares. Os brutamontes do Incontestável S. foram desarmando-se, como feras domadas por anjos. Resignados, calaram-se e baixaram guarda. O tumultuo foi apaziguando-se e até mesmo os defloradores de donzelas ficaram para ouvir a voz daquele sujeito maluco, mas que todos, como pude perceber, respeitavam, um respeito, acredito eu, baseado no temor de sua história.

"Homens serão sempre homens! O que nos separa são seus pensamentos, mas todos são apenas homens, semelhantes. Se vivessem as desventuras que vivi, se vissem nossos reais inimigos, abraçariam-se em comunhão e clamariam a Yia por consolidação. Se um exército de Buggars e seus Rors avançassem por nossas fronteiras o que acha que S. faria por vocês? Daria-lhes abrigo em seu palacete? Não, meus caros, ele fugiria, junto com os outros de sua classe e deixariam todos vocês para sangrarem até a morte. Ouçam o que lhes digo, aqui, agora, somos o povo e o povo deve se manter amigo, pois o inimigo um dia há de voltar. Espero ter partido antes desse dia chegar... mas, até lá, devo contar tudo que sei para que - Yia nos livre de que isso aconteça - estejam preparados para o verdadeiro inferno!"

Os degoladores de Zihas deixaram-se levar pelas palavras do orate. All tinha a oratória que nenhum outro líder daquela comunidade possuía. Se tivesse que apostar num debate entre o Eloquente S. e All, poria todas minhas moedas roubadas no orate, com certeza. E olha que eu o conhecia há poucos minutos.

"Espero não mais ser interrompido por essa tarde..." - disse All prosseguindo.

Afeiçoei-me àquele velho. Tanto que até deixei de afanar mais alguns itens de homens desatentos que estavam próximos a mim. Fiz isso por All, bem, ao menos naquele instante decidi deixar algumas moedas me escaparem, apenas pelo bem da história.



continua...


segunda-feira, 11 de maio de 2015

5 (cinco)




O conto a seguir é a sexta parte de uma sequência de contos intitulada: Zero! Para ler as partes anteriores clique nos link que estão na ordem: 0 (zero), 1 (um), 2 (dois), 3 (três), 4 (quatro)! Boa leitura!




O tempo passou corrido, já era quase madrugada e nada do sujeito aparecer. Livrei-me do pensamento, tentando concentrar-me na minha nova leitura. Estava já no último capítulo. "Não vou esperá-lo" - dizia-me enquanto terminava o livro. Estava no meu antepenúltimo livro, depois só teria os que ele deu-me e então...

Refleti sobre isso por um momento, "Estes serão seus últimos" - disse-me na noite passada acerca dos livros dados. Seria verdade? Não estaria alucinando? Meu fim estaria realmente chegando? Beberiquei meu café e retornei para a história nas folhas agrupadas na minha frente. O que mais podia eu fazer?


Fatos:

   - 1. Se ele não havia chegado ainda era porque, provavelmente, era tudo coisa da minha cabeça mesmo.

   - 2. Algo deveria ser feito a respeito, mas eu detestava médicos, ainda mais psiquiatras.

   - 3. Uma última xícara de café depois do fim do livro e eu iria embora.


O tempo escoou e eu terminei a última página do volume. Fechei-o e pedi meu último café. Oito minutos para as duas da madrugada. Iria mais cedo para casa. Meu café chegou fumegante, soprei-o, provei-o e pousei a xícara no pires. 

"Se eu fosse apostar na causa da sua morte eu diria que seria por causa do excesso de café no seu organismo. Isso com certeza faz mal." - disse a voz melosa e delicada da jovem garotinha sentada na minha frente. 

Tinhas os cabelos lisos e finos e estes escorriam-lhe pelos ombros, loiros como o sol brilhante. Vestia-se simplesmente. Era alva, de pele quase translúcida, e incríveis olhos azuis claros, como os olhos do meu estranho acompanhante misterioso. 

Engoli em seco e estagnei-me.

"Ah!, não vai dizer que não gostou desse aspecto jovial e inocente, vai?!" - perguntou em sua voz angelical.

"Quem é você, mocinha?!" - perguntei timidamente sentindo-me idiota por já ter quase certeza de quem era.

A garotinha gargalhou estridente, como se estivesse rindo forçadamente para coleguinhas da escola. Alguns espectadores olharam desconfiados. Devo citar mais fatos:


   - 1. Era uma garotinha agradável, devo confessar.

   - 2. Garotinhas não andavam sozinhas pela madrugada.

   - 3. Seus olhos eram como os dele, não poderia ser outra pessoa.


"Ora, vamos!" - disse a menina ainda recuperando-se das risadas - "Achei que bem lá no fundo você teria um certo senso de humor."

"O que quer provar com isso?"

"Não quero provar nada, meu caro. Não preciso disso. Gosto de trocar de 'roupa' de vez em quando"

"Isso só faz-me acreditar que..."

"Já sei, já sei! Que chatice, moço!" - interpretou sua personagem, caçoando-me - "Faz você acreditar que eu sou coisa da sua cabeça. Que saco!" - disse mais alto as duas últimas palavras.

"Ok! Você venceu, não falo mais sobre isso." - pausei e retomei - "Você disse ontem que viria no mesmo horário. Está atrasado... quer dizer... atrasada!"

Ele, ou ela, riu de mim. Senti-me envergonhado.

"Eu não queria interromper-lhe a leitura. Esperei que acabasse. Mas cá estou!"

"Achei que estaria matando pessoas demais hoje!" - ironizei e omiti meu real pensamento de que ele não existia.

"Sei!" - respondeu a jovenzinha duvidando de minhas palavras - "Acha mesmo que eu preciso ausentar-me para levar alguém daqui para acolá?"

"Eu pensei que..."

"Acha que ninguém está morrendo neste instante?"

"Como você..."

"Já disse, não sou um ser físico. Não estou aqui e nem lá. Simples assim. Trabalho bem desse jeito."

"Quem fez você?"

"Sempre existi."

"Tem de haver uma origem."

"Sou a origem."

"Como tomou conhecimento de quem era?"

"Sempre fui consciente de quem sou."

"Mas de onde você veio? Como chegou aqui?"

"Da rua, pela porta!" - ridicularizou-me. 

"Sério, responda!" - disse-lhe nervoso.


Fatos:

   - 1. Era confuso e controverso conversar com ele, ela.

   - 2. Não era fácil entender algo que sempre existiu.

   - 3. Era uma garotinha realmente muito graciosa. 


"O que eu poderia dizer-lhe que não parecesse confuso e estranho... hum... deixe-me pensar..."

"Por que as pessoas morrem?"

"Porque foram feitas para ser assim... quer dizer, a maioria foi feita para ser assim."

"Quem as fez ass..." - interrompi minhas palavras e substituí a pergunta - "Como assim? Quem não foi feito para ser assim?"

"Árvores!" - respondeu-me aborrecida e escondendo-me algo - "Não sei quem faz vocês, isso não me importa." - calou-se.

"Sabe, percebo coisas em você." 

"É?! O que percebe em mim?" - disse-me inclinando-se para frente e pondo as mãozinhas inocentes no queixo.

"Você é descontente por ser você. Digo, deve realmente ser desgostoso ser uma... uma... entidade, sei lá, e não saber de quase nada, como a sua própria origem, por exemplo."

Ela, ele, bateu forte com a mão sobre a mesa. Estava realmente nervosa. Fez um beicinho de menina birrenta, mas desfez o bico para dar lugar a uma expressão serena que não condizia com uma garotinha.

"Você é ousado, meu caro!" - disse sorrindo de canto.

"Desculpe se ofendi, só disse o que pensava."

"Você deve estar certo. Mas não diria esse tipo de coisa se vivesse no meu lugar... você faz ideia de como é penoso ser o que eu sou? Tem ideia, alguma ideia, do que é ser eu?!" - ela baixou a cabeça, passou as mãozinhas pelos cabelos e ficou pensativa.

"Olha, não quis ser rude, me desculpe."

"Af! Pare de achar que está falando com uma garotinha real. Arrependo-me de ter vindo assim hoje." - disse indignado.

"Não quis dizer dessa forma, só quis..."

"Tá, tá, já sei, tudo bem." - despachou-me com a mão - "Quer saber?, vou contar o que eu sei, aproveite o que vai ouvir, não costumo contar isso para ninguém, exceto..."

Ela, ele, parou de falar, ainda de cabeça baixa, deixando à mostra seus dourados cabelos. Não quis interromper, senti algo estranho naquele momento. 


   - 1. Minhas dúvidas estavam indo por água abaixo. 

   - 2. Seria possível um ser como a Morte possuir sentimentos?

   - 3. Seria se aquela entidade fosse apenas alguma coisa da minha cabeça, é claro. Mas não precipitei-me, apenas aguardei.


"Houve um rapaz, um homem, mas conheci-o ainda muito jovem, perto do dia do seu fim. Seria um fim bem triste e violento, garanto-lhe. Mas alguma coisa aconteceu, algo inesperado, algo que eu vi acontecer pela primeira vez, algo que eu pude chamar de primeira vez em toda minha sempre existência. Foi inesperado, como eu disse, foi impressionantemente desafiador." - falou-me num completo transe recordativo.

"Esse homem, quebrou as barreiras da vida e da morte, ele superou-se, ele... ainda vive." 

Ouvi e esperei por muito tempo. Como ela não disse mais nada, eu arrisquei perguntar.

"O que tem de tão estranho em alguém estar ainda vivo?" - disse humildemente, não querendo irritá-la.

"Lembra do que eu disse agora há pouco, sobre eu sempre existir? Então, não há um começo, não há um fim, há um agora para mim e mais nada. Só existe o agora, o sempre, e é assim e pronto. Essa é a regra. Mas eu compreendo a sua existência, por exemplo, vejo a sua linearidade, o seu tempo progressivo, ainda que mesmo assim eu não faça parte dele, entende?"

Confirmei com a cabeça mesmo ainda não tendo entendido.

"Sabendo dessa noção de tempo que acontece paralelamente à minha existência, diria que esse homem deveria ter morrido quando eu comecei a existir, ou seja, ele sempre existiu, como eu. Mas eu vi o seu princípio, eu vi seu nascimento, mas até hoje... nunca vi o seu fim."




continua...                  Para ler a próxima parte espere até amanhã!